A Invasão de Olhares nos Tempos Modernos

Vivemos na era da “Internet das coisas”. Cada vez mais estamos substituindo a vida real pela digital, talvez pela falsa sensação de segurança, de anonimato, de controle, de pertencimento, de relacionamento, de ser amado… Esse modelo social em que atualmente nos encontramos interfere diretamente na construção da identidade no período da adolescência, uma vez que identidade sempre é afetada pelas significações culturais e varia de acordo com as situações vivenciadas e a história de vida de cada indivíduo.

Além disso é impossível falar de adolescência sem falar de corpo, pois a relação entre adolescência e puberdade, entre o psicossocial e o biológico, participarão de forma determinante na formação   do self e da autoimagem daquele indivíduo em constituição.

Identidade e Autoimagem

Construir uma identidade implica em definir quem se é, que valores e direções se deseja seguir pela vida. É uma concepção bem-organizada do Ego, composta de valores, crenças e metas com os quais o indivíduo está fortemente comprometido. Em sua teoria, Erikson relata a existência de dois momentos antagônicos na formação da identidade: difusão de identidade e identidade do ego.
A difusão de identidade é o início do processo de construção da identidade, quando o indivíduo tem dificuldades em aprender sobre si mesmo e seu entorno, não conseguindo constituir uma identidade que seja realista de acordo com suas características pessoais e de seu contexto sociocultural. Já o momento de identidade propriamente dita acontece quando os jovens escolhem os valores aos quais serão fiéis, percebendo que suas realizações têm reconhecimento e significado em sua cultura. Identidade, como estrutura psicossocial, é sempre construída em um contexto relacional.

Com relação à autoimagem, Outeiral (1994) acredita que o adolescente apresenta elevado grau de ansiedade e de formulações fantasiosas conscientes e inconscientes com relação ao seu processo de “adolescer” e ao seu próprio corpo, diante das transformações físicas vivenciadas na puberdade que fogem de seu controle e às quais ele responde passivamente. Isso acaba por culminar em um afastamento e isolamento em relação ao seu grupo social.

Self e Falso Self

Não há um consenso em relação à definição de self, pois cada autor vai compartilhando sua visão acerca desse tema.

O ser humano conta com um potencial inato, que segue em direção ao amadurecimento e que necessita de um ambiente facilitador para que ele possa se constituir como um indivíduo. Winnicott (1990) denominou esse potencial de self central ou verdadeiro. Há dois aspectos fundamentais acerca do self verdadeiro. Um diz respeito ao self herdado e o outro as experiências como possibilidade de existência. Ou seja, é por meio da experiência que o potencial herdado vai ganhando forma e podendo emergir. Safra (1999) diz que, a partir do contato com o ambiente, esse self necessita ir adquirindo em seu próprio modo e tempo uma experiencia psíquica que lhe possibilite sentir-se real, sentir que o mundo é real e que a existência é contínua. Pois o ser humano é capaz de conhecer de verdade aquilo que ele é capaz de esboçar subjetivamente no mundo, ter a vivência de cria-lo, sem que a externalidade se imponha invasiva e precocemente.

Se faz necessário que algumas condições sejam garantidas desde o início do desenvolvimento do indivíduo para que a expressão do verdadeiro self se torne possível. Por exemplo, a mãe suficientemente boa possibilita que o bebê crie o mundo e viva a ilusão de onipotência. Com isso o self verdadeiro pode se manifestar, na medida em que não há ameaças à sua continuidade.
Em suas teorias psicanalíticas, Winnicott (1990) desenvolveu o conceito de falso self para representar uma identidade que venha a ter aceitação para o Próprio Sujeito e para os Outros não a partir da experiencia genuína e espontânea, mas da crença de que se poderá ser amado. Ele surge de uma falha do ambiente, e se constitui como uma tentativa de substituição da função materna que falhou, e tem o intuito de proteger o self verdadeiro, dando-lhe condições para se desenvolver. Ou seja, o falso self é uma defesa oculta para proteger o self verdadeiro.

 Ele cita uma classificação da organização do falso self em níveis distintos, da patologia à normalidade, como:

• o falso self usado e tratado como real, ocultando o verdadeiro self;

• o falso self que defende e protege, mas que sente o verdadeiro self como potencial e o preserva numa vida secreta;

• o falso self que se ocupa em encontrar condições ambientais que possibilite ao self verdadeiro começar a existir;

• o falso self constituído sobre identificações introjetadas ao longo da vida;

• na normalidade, o falso self como a atitude social adequada, protegendo um verdadeiro self que se encontra vivo.

A interferência das Mídias Sociais na Construção da Identidade e Autoimagem

Em um período em que o adolescente nasce já inserido em uma sociedade cuja cultura está incutida na tecnologia, pode-se considerar que a construção de sua identidade está à deriva. Isso ocorre, pois diferentemente do passado, onde a identidade era definida de antemão pela sua família e pela sua cultura local, agora ela passa a ser individualizada, sem parâmetros ou ritos de passagem.

Em meio a essa desordem e responsabilidade individualizada, as mídias sociais acabam sendo um bom lugar para se buscar pela identificação, pois é um local onde pode-se interagir com outros grupos que se identificam, se autoafirmam em sua autoimagem – o que faz com que esse indivíduo sinta o contentamento da possível inclusão e aceitação, em nome das quais pode até redefinir sua autoimagem. E na necessidade de buscar por uma identificação com seus pares em meio a uma sociedade individualista e sem um direcionamento delineado prévio, o adolescente acaba por anular seu self verdadeiro nas redes sociais, moldando sua imagem conforme aprovação ou desaprovação delas constituindo assim, sua autoimagem sob a ótica do outro.

Se pararmos para analisar, a moda do “selfie” (prefixo originário da palavra “self” – que significa “eu” + sufixo “ie” – derivado da língua norte-americana) é o ato de tirar foto de si mesmo, e seu uso recorrente pode significar um indivíduo que cultua a própria imagem, que por sua vez é substituída constantemente por outras que verificam sua superexposição. O uso constante de selfies nas redes sociais pode indicar uma manifestação narcisista, em que o indivíduo constrói uma imagem do ideal de si mesmo e a publica com a intenção de que outra pessoa possa defini-lo como sujeito, aprovando ou não a sua existência. A selfie surge para suprir a necessidade do olhar que o outro tem do sujeito e da sua própria autoavaliação. É o desejo de ser no mundo e se representar. Pode-se considerar que ela busca uma narrativa de algum contexto, mas também é esvaziada de emoções.

Partindo dessa premissa, as “curtidas” se tornam uma ferramenta para avaliação e escalação do impacto do indivíduo no meio virtual. Ou seja, quanto mais curtidas, mais influente e inserido ele está.

Em seu artigo, Dos Santos (1999) aponta que as postagens, em geral, não simbolizam uma construção individual de sujeitos sociais, mas sim uma identidade formada pelo referencial coletivo. Hoje podemos considerar que os chamados influencers caracterizam normas e padrões de aceitação virtual e tornam-se objeto de desejo, de ideal, dos sujeitos coadjuvantes do cenário virtual.

Sob a perspectiva junguiana, essa percepção se aproxima do conceito de Persona – a máscara com a qual nos apresentamos ao mundo, que inclui os papéis sociais, tipos de expressão e comunicação; que nos possibilita adotar consciente ou inconscientemente uma personalidade artificial. Porém, com a flexibilidade e o dinamismo presentes nas mídias sociais, esses papéis ganham vida nesse “não-lugar”, o que permite que o indivíduo seja qualquer coisa, menos ele mesmo. Essa coisificação do Eu e a personificação da Coisa, forçadas pela manutenção das Personas nas mídias sociais, produzem uma imensa gratificação emocional, e, ao mesmo tempo, um enorme sentimento de insegurança, além de um gigantesco gasto de energia psíquica para manter as aparências desses papéis, como afirmam Azevedo et al.
Segundo Souza, os valores estabelecidos nessa sociedade pós-moderna em que nos encontramos se dão através da “indústria cultural que massifica e aliena, padronizando identidades e excluindo qualquer possibilidade de construções identitárias individualizadas.”

E como Bauman (2001), aponta, esse modelo de organização social gera exclusão social como nenhum outro, pois as demandas das comunidades na sociedade fluida não obedecem a quaisquer regularidades, restringindo o acesso e sucesso dos inaptos e daqueles que almejam projetos e vida lineares. Para o mesmo autor, “esse movimento acelerado e contínuo de seleção e descarte identitários, cujas transações alimentam um mercado de consumo cíclico de curtíssimo prazo, bem como a aparente ausência de controle dos efeitos supracitados, parecem produzir mais desigualdade, intolerância, exclusão, insegurança e desconforto (como depressão e ansiedade), do que prazer e bem-estar”.

Hoje a internet vem se tornando cada vez mais fluída e superficial, com menos selfs, mais selfies e um uso demasiado de falsos selfs, o que pode ser traduzido para o mundo real ou offline, como um espaço que contribui, algumas vezes, para que os jovens acabem inseguros, desorganizados, com propensão a sintomas depressivos e ansiosos, egos fragilizados, com dificuldade na construção de uma identidade fixa e definida.

Referências Bibliográficas

  1. AZEVEDO, Jefferson Cabral; SOUZA, Carlos Henrique Medeiros; ISTOE, Rosalee Santos. A coisificação do “eu” e a personificação da “coisa” nas redes sociais: verdades e mentiras na formação das estruturas de identidades – Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, vol. 5, núm. 1, enero-junio, 2012.
  2. BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, 2005. Disponível em: <https://periodicos.ufs.br/Ambivalencias/article/view/3932/3295> (último acesso em 02/08/2023)
  3. CORDEIRO, Leonardo Húngaro; SANTOS, Lorena Caroline Romano; SILVA, Renan Sarto da; GOMES, Geni Col. Um olhar psicanalítico sobre a influência das redes sociais na constituição da autoimagem do adolescente, 2022.
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  6. MAIA, Leonardo. Falso Self: quem eu sou de fato e como viver entre o fake e o real?, 2021. Disponível em: <https://www.psicologiacontemporanea.com.br/single-post/falsoself> (último acesso em 02/08/2023)
  7. SANTOS, Leonardo Maia; STORT, Arali Helena. A construção do “si mesmo” frente aos paradigmas das redes sociais, 2019.
  8. SCHOEN-FERREIRA, Teresa Helena; AZAR-FARIAS, Maria; SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. Desenvolvimento da identidade em adolescentes do ensino médio, 2009. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/prc/a/79tPzJPS8XyZj3wkGCnyncK/> (último acesso em 02/08/2023)
  9. SILVA, Marco Antonio Morgado da; ARAÚJO, Ulisses Ferreira de. Self moral e identidade moral: integração entre perspectivas, 2020. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/pusp/a/YmMHqDgpJxcZ93r9LpZ4Lwz/#> (último acesso em 02/08/2023)
  10. SOUSA, Paulo Victor; BRAGA, Vitor. Self, identidade, redes sociais: definições e relações entre a psicologia social e a comunicação em tempos de redes sociotécnicas, 2013. Disponível em: <https://abciber.org.br/simposio2013/anais/pdf/Eixo_8_Imaginario_Tecnologico_e_Subjetividades/25942arq04426928460.pdf> (último acesso em 02/08/2023)

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