O luto pode ser caracterizado como a perda de algo muito significativo para um indivíduo. Pode ser uma pessoa, um animal de estimação, um trabalho, uma promoção, um relacionamento, um sonho, um objetivo, entre outros.
Segundo o DSM- 5, o luto normal se configura por um anseio ou saudade intensa da pessoa falecida, dor emocional e sentimento de tristeza intenso, outras respostas esperadas são a preocupação com a pessoa falecida ou com as circunstâncias da morte desta.
Quando as capacidades de lidar com a perda são escassas, pode acabar percebendo o sofrimento pelos sintomas manifestados e ligados à negação e inibição da perda, o que pode levar ao processo de luto mal adaptativo.
Em alguns casos, a resposta à perda é mais persistente e incapacitante e inclui sintomas que se sobrepõem um pouco àqueles do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtorno depressivo maior (TDM) e duram mais de 12 meses, preenchendo assim os critérios para o transtorno por luto prolongado descrito recentemente.
Segundo Zwielewski e Sant’Ana (2016), a morte é um evento estressor na vida de um indivíduo, gerador de muito sofrimento e de alterações psicológicas, fisiológicas, comportamentais e até sociais. As dificuldades provenientes do luto, podem incapacitar e desorganizar a vida das pessoas enlutadas a ponto de não conseguirem lidar com tamanha tristeza. Saber diferenciar a tristeza característica de um luto normal daquela considerada patológica é importante para o profissional de saúde mental, tanto para que o processo de intervenção seja adequado e não cause mais sofrimento quanto para que não se acabe por negligenciar os sintomas do paciente. (Zisook & Shear, 2009; Zwielewski e Sant’Ana, 2016). Se faz necessário compreender qual o entendimento do indivíduo sobre a morte, como ele tem lidado com a perda, além de identificar as crenças do paciente que foram ativadas com a perda sofrida pelo indivíduo.
Conforme Hartmann, et al (2020), Nascimento, et al (2006) diz que a maneira como se rompe o vínculo, as emoções e sentimentos estão interligados ao padrão de apego do enlutado, ao modelo de relação que esses sujeitos tinham antes da morte.
Worden (2013), em seu livro, expõe alguns sentimentos que permeiam o luto: Tristeza, Raiva, Culpa e Autocensura, Ansiedade, Fadiga, Solidão, Choque, Saudades, Libertação, Alívio e Torpor.
Para Elizabeth Kubler-Ross (2000), o processo de morrer passa por cinco estágios, não lineares, de elaboração do luto:
- Negação e isolamento – esse primeiro estágio tem o funcionamento de um mecanismo de defesa, indivíduo recusa a aceitar a situação diante da perda/morte, podendo entrar em estado de choque, recuperando gradativamente a consciência da realidade.
- Raiva – esse segundo estágio entra quando o primeiro perde sustentação e entra o sentimento de impotência devido a perda iminente.
- Barganha – terceiro estágio é uma tentativa de acordo do enlutado com quem representa o poder de adiar ou reverter a morte, como Deus, profissionais da saúde, etc, através de promessas.
- Depressão – quarto estágio, onde a sensação de perda vai ser expressa por uma depressão reativa que aparece logo após a notícia da perda; e como uma depressão preparatória, onde se percebe uma conscientização de nada mais poder fazer diante da perda iminente.
- Aceitação – é o último estágio, onde o indivíduo já consegue se expressar de forma mais clara, ressignificar a realidade, e trazer a sensação de alívio.
Enfrentando o luto
É muito importante o apoio familiar, dos amigos e da sociedade em ajuda mútua, em grupos de apoio e dos grupos religiosos, bem como de extrema urgência o processo terapêutico, muitas vezes em paralelo com a psiquiatria em casos graves, pois isso ajudará o paciente a passar pelo processo de luto da maneira mais saudável possível, como destacam autores como Worden (2013) e Parkes (1998).
É na psicoterapia que o enlutado encontra um local seguro para falar dos sentimentos relacionados à perda, e progressivamente ir compreendendo a normalidade desses.
A Teoria Cognitivo-Comportamental é a abordagem psicoterapêutica que faz uma correlação entre pensamentos, emoções e comportamentos, que são influenciados pelas interpretações que o indivíduo tem em relação a um evento, estabelecendo crenças que podem se tornar disfuncionais dependendo de suas distorções cognitivas. Worden (2013) diz que a morte e o processo de luto despertam sintomas físicos, cognitivos, emocionais e comportamentais, considerados normais, porém, se não elaborado de forma funcional, pode ser um desencadeador de crenças disfuncionais, bem como de patologias, comprometendo a rotina normal do paciente, como de suas relações pessoais.
Com a possibilidade de uma psicoeducação, onde o paciente aprende a avaliar seus pensamentos automáticos, as crenças disfuncionais, e consequentemente a mudar seu humor e comportamento diante dos eventos estressores que ele experimenta (BECK, 2013). Ela vai construir uma intervenção psicoterapêutica a partir da consideração das crenças dos indivíduos com relação à morte/perda de algo importante, pautada em técnicas que vão acompanhar os estágios do luto. E é claro, valorizando uma relação terapêutica sólida, a empatia para com o paciente em sofrimento profundo e intenso, que vai corroborar na criação de um ambiente ainda mais acolhedor.
Há um estabelecimento de técnicas que vão auxiliar na conscientização de reconhecimento e automonitoramento de pensamentos, emoções e comportamentos, proporcionando o aprimoramento ou aprendizagem de habilidades cognitivas e comportamentais, capacidade de readequação, de uma adaptação à nova realidade.
Fernandes e Pereira (2022) destacam que o luto mesmo sendo um processo natural resultante de uma perda simbólica ou da morte, pode se agravar necessitando de uma intervenção. E que os estudos presentes na literatura apontam resultados da eficácia da TCC no luto, tanto para o alívio dos sintomas do luto, como para a sua elaboração de forma saudável.
Referências Bibliográficas
1. American Psychiatric Association (APA). DSM V: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed., texto revisado. – Porto Alegre: Artmed; 2023.
2. HARTMANN, Jéssica Paula; NASCIMENTO, Kelen Braga do; FATAH, Sabrin Salah Abdel; MACHADO, Laura Morais. As (inter)faces do luto na clínica: desdobramentos do processo terapêutico na elaboração do luto a partir da terapia cognitivo-comportamental, 2020. Disponível em: https://www.ulbracds.com.br/index.php/interfaces/article/view/2955/329 (último acesso em 31/07/2023).
3. FERNANDES, Thaís de Carvalho Muniz; PEREIRA, Beatriz dos Santos. Contribuições da Terapia Cognitivo Comportamental na Assistência a Pessoa Enlutada, 2022.
4. ZWIELEWSKI, Graziele; SANT’ANA, Vânia. Detalhes de protocolo de luto e a terapia cognitivo-comportamental, 2016. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872016000100005 (último acesso em 31/07/2023).


