TDAH em adultos e crianças: desafios do diagnóstico e do acompanhamento

TDAH

O TDAH não é falta de força de vontade

Por muito tempo, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) foi reduzido a estereótipos: a criança “agitada”, o adulto “desorganizado”, a pessoa “distraída”.

Na prática, não é tão simples assim.

O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta diretamente a forma como a pessoa regula a atenção, organiza tarefas, lida com o tempo e administra impulsos.
E compreender isso muda bastante coisa, principalmente a forma como a pessoa passa a se enxergar.

O que é o TDAH

Ele envolve padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade que interferem no funcionamento da vida.

De acordo com o American Psychiatric Association, ele pode se apresentar de três formas:

  • predominantemente desatento
  • predominantemente hiperativo/impulsivo
  • ]combinado

Estima-se que cerca de 5% das crianças e 2,5% dos adultos apresentem o quadro, com variações entre estudos e contextos, como traz o World Federation of ADHD International Consensus Statement (Stephen V. Faraone et al., 2021) e com o American Psychiatric Association (DSM-5-TR), que apontam prevalências semelhantes em nível global.

TDAH na infância

Na infância, os sinais costumam aparecer de forma mais visível.

A criança pode ter dificuldade de se manter em atividades, esquecer instruções, se movimentar constantemente ou agir por impulso.
Na escola, isso muitas vezes se traduz em queda no rendimento, dificuldade de acompanhar tarefas e desafios na socialização.

Mas é importante um cuidado:

esses sinais precisam aparecer em mais de um contexto (como casa e escola) e não podem ser explicados apenas por outros fatores, como ansiedade, mudanças familiares ou dificuldades específicas de aprendizagem.

TDAH em adultos: muitas vezes, um diagnóstico tardio

Em muitos casos, o TDAH não é identificado na infância.

E aí ele não desaparece, ele muda de forma.

Na vida adulta, pode aparecer como:

  • dificuldade constante de organização
  • procrastinação persistente
  • sensação de estar sempre “atrasado na vida”
  • esquecimentos frequentes
  • dificuldade de gerenciar tempo e prazos
  • alternância entre desinteresse e hiperfoco intenso
  • sensação de potencial não aproveitado

Muita gente só começa a suspeitar depois de anos ou quando um filho recebe diagnóstico.

E, às vezes, junto com isso, vem uma pergunta silenciosa:

“por que tudo parece mais difícil para mim?”

O impacto emocional do TDAH

Viver com TDAH não reconhecido costuma ter um custo emocional alto.

Não só pelos sintomas em si, mas pelo que se constrói ao redor deles.

Com o tempo, podem aparecer:

  • Ansiedade
  • Sintomas depressivos
  • Baixa autoestima
  • Sintomas depressivos
  • Baixa autoestima
  • Autocrítica constante
  • Sensação de fracasso ou inadequação
  • Esgotamento

O TDAH raramente vem sozinho. Comorbidades são comuns e precisam ser consideradas no cuidado.

Quando parece TDAH, mas pode ser outra coisa

Nem toda dificuldade de foco, organização ou impulsividade é TDAH.

Na prática clínica, é comum encontrar quadros que se parecem com TDAH, mas estão relacionados a hábitos, contexto de vida ou sobrecarga emocional.

Alguns fatores que podem produzir sintomas semelhantes:

  • rotina desorganizada, sem começo, meio e fim
  • excesso de estímulos (uso constante de telas, multitarefa)
  • privação de sono
  • falta de pausas reais ao longo do dia
  • ambientes muito caóticos ou pouco estruturados
  • ausência de limites claros (externos ou internos)
  • sobrecarga emocional ou ansiedade
  • dificuldade de planejamento e priorização

Nesses casos, o que aparece é:

  • dificuldade de manter foco
  • procrastinação
  • sensação de desorganização constante
  • impulsividade em decisões
  • dificuldade de sustentar tarefas até o fim

Mas a origem pode ser diferente.

Aqui entra um ponto importante:

TDAH é um padrão persistente, presente desde a infância e em diferentes contextos.

Já dificuldades relacionadas a hábitos tendem a oscilar conforme rotina, ambiente e fase de vida.

Essa diferenciação é essencial, pois muda completamente o tipo de cuidado.

Segundo autores como Russell A. Barkley e Thomas E. Brown, o diagnóstico exige não apenas a presença de sintomas, mas a compreensão do padrão ao longo do tempo e do impacto funcional.

Ou seja: não é só “o que aparece”, mas como, desde quando e em quais contextos isso acontece.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico de TDAH é clínico e exige cuidado.

Ele não é feito com base em um único teste, mas na integração de diferentes informações:

  • Entrevista detalhada com o paciente
  • Histórico familiar e de desenvolvimento
  • Avaliação de sintomas em diferentes contextos
  • Aplicação de instrumentos padronizados
  • Avaliação neuropsicológica em alguns casos
  • Exclusão de outras causas para os sintomas

Por isso, é um processo e não um rótulo imediato.

O papel da psicoterapia

A psicoterapia tem um papel central no acompanhamento.

Mais do que “organizar a vida”, ela ajuda a pessoa a se compreender.

Ao longo do processo, é possível:

  • entender como o TDAH se manifesta no dia a dia
  • desenvolver estratégias práticas de organização
  • trabalhar regulação emocional
  • reduzir autocrítica
  • construir rotinas mais possíveis (e não ideais irreais)
  • melhorar relações impactadas pelos sintomas

Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental adaptada para TDAH têm boa evidência de eficácia, como mostram estudos de Steven A. Safren.

Tratamento integrado

O cuidado com TDAH costuma ser multidimensional.

Pode incluir:

  • psicoterapia
  • avaliação psiquiátrica e, quando indicado, medicação
  • orientação parental (no caso de crianças)
  • suporte escolar
  • estratégias práticas de rotina e organização
  • atenção ao sono, alimentação e atividade física

Não é uma coisa ou outra. É a combinação que faz diferença.

O que muda quando o TDAH é reconhecido

Para muitas pessoas, o diagnóstico não é um peso.

É um alívio.

Ele permite:

  • compreender a própria trajetória
  • reduzir a culpa pessoal
  • acessar estratégias mais adequadas
  • ajustar expectativas
  • reorganizar a própria identidade

Não é sobre “explicar tudo”, é sobre começar a fazer sentido.

Mitos comuns sobre o TDAH

“É frescura, todo mundo se distrai”
Todo mundo se distrai. Mas no TDAH isso é persistente e interfere na vida.

“Adulto não tem TDAH”
Tem, e, na maioria dos casos, continua.

“Quem tem TDAH não consegue focar”
Consegue, mas de forma irregular. O hiperfoco é comum.

“É só ter disciplina”
Disciplina ajuda, mas não resolve uma condição neurobiológica.

Vivendo com TDAH: caminhos possíveis

O TDAH é algo que se compreende, se ajusta e se acompanha.

Com suporte adequado, é possível:

  • construir estratégias que funcionam
  • reduzir sofrimento
  • aproveitar potencialidades
  • viver com mais clareza e menos culpa

Em resumo

O TDAH é uma condição real, com base neurobiológica, que afeta a vida de muitas pessoas, muitas vezes de forma silenciosa.

Compreender o TDAH não é só tratar sintomas.
É reconhecer uma forma de funcionamento e construir caminhos possíveis a partir dela.

Dúvidas fazem parte do processo.
E ter com quem olhar para elas, com cuidado, faz diferença.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a ampliar a compreensão do desenvolvimento e oferecer o suporte necessário em cada fase.

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Referências científicas

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