Caracterização de uma dependência
As dependências são definidas como um impulso habitual a realizar certas atividades ou utilizar de forma recorrente ou periódica, alguma substância, apesar das consequências devastadoras ao bem-estar físico, espiritual, mental, financeiro e social do indivíduo, a fim de obter prazer, fugir de problemas, aliviar medos, tensões, sensações indesejadas, dentre outros fatores que podem levar o indivíduo a desenvolver tal comportamento.
Young e Abreu (2011) relatam que a dependência apresenta características físicas e psicológicas. A dependência física se caracteriza quando o corpo do indivíduo se torna dependente de certa substância ou de certa atividade e acaba acometido por sintomas de abstinência quando descontinua seu hábito.
O que acontece é que inicialmente o seu consumo ou resposta da atividade realizada, induz prazer, mas quando seu consumo ou atividade passa a ser continuada, a sua necessidade é de eliminar a ansiedade na sua ausência, o que leva o indivíduo ao comportamento compulsivo. Já a dependência psicológica acaba se tornando evidente quando o indivíduo é acometido por sintomas de abstinência como fissura, insônia, depressão e irritabilidade.
Dependência de internet como um transtorno
Com relação a dependência de internet, vem sendo muito comum a discussão sobre este conceito e apesar de seu primeiro estudo ter sido realizado em 1996, apenas nas últimas décadas é que foi aceito como um transtorno clínico legítimo e até mesmo está sendo pensado em incluir seu diagnóstico no apêndice do DSM-V.
É um fenômeno clínico e social, mas ainda é difícil determinar o quão disseminado este problema está. Ainda existe a dificuldade em criar padrões universais de atendimento e avaliação devido ao campo ser culturalmente diverso e a terminologia na literatura também variar muito.
As dependências tecnológicas podem ser consideradas como um subgrupo das dependências comportamentais. Dependentes de internet experienciam o desejo incontrolável de utilizá-la (fissura), preocupação com a internet quando desconectados dela e a abstinência, o que configura nos sintomas centrais de dependência, com alterações de humor, conflitos, recaídas…
Alguns dos fatores que desempenham um papel no desenvolvimento da dependência de internet
- meio de compensar ou lidar com déficits de autoestima;
- identidade;
- dificuldade em formar relacionamentos íntimos;
- fuga por se sentirem ou serem oprimidos;
- estarem passando por problemas pessoais (divórcio, circunstâncias da vida, morte de alguém próximo, demissão, etc).
A internet acaba oferecendo para esses indivíduos um universo cheio de fantasias, a sensação de segurança, possibilidade de construir relacionamentos íntimos e pertencer a algum grupo, portanto, geralmente pessoas insatisfeitas com suas vidas, com empobrecimento e carência de relacionamentos íntimos e sólidos, sem autoconfiança, sem esperança; acabam sendo mais vulneráveis a trocar o mundo físico pelo fantasioso, desenvolvendo assim a dependência tecnológica.
O perigo do excesso de exposição a telas na infância e adolescência
E se estamos falando sobre a vulnerabilidade ser uma das portas para o possível desenvolvimento da dependência tecnológica, não podemos deixar de abordar esse tema acerca da infância e adolescência, períodos de desenvolvimento biopsicossocial.
Um exemplo trazido por Michel Desmurget em sua obra “A fábrica de cretinos digitais”, crianças com menos de 2 anos, que ficam 50 minutos por dia nas telas, podem ter até 850 mil palavras não ouvidas, ilustrando bem o que a utilização inadequada das telas impacta nas crianças.
Alguns adolescentes, por exemplo, se sentem isolados e por isso são mais facilmente atraídos para esse ambiente que oferece uma possibilidade supostamente segura em questão de muitas vezes poder se relacionar, mesmo com a formação de vínculos podendo ser frágeis e desfeitas num clique.
Além disso, existe também a pressão de seus colegas e algumas instituições de ensino, das pressões culturais, para que estes participem dos vários comportamentos e atividades na internet. Geralmente são os meios tecnológicos que envolvem comunicação de mão dupla como jogos, e-mail, mensagens, que mais podem provocar o desenvolvimento da dependência.
Como alguns autores abordam em seus estudos e pesquisas, o uso excessivo de internet pode afetar:
- a coordenação motora devido ao movimento repetitivo de alguns dedos da mão;
- movimentos do corpo como um todo devido à falta de um exercício físico;
- a linguagem, escrita, memória e atenção, pela rapidez de conteúdos visualizados;
- a redução da concentração e da memória;
- insônia;
- alteração de humor;
- dificuldades acadêmicas;
- aumento nos níveis de depressão e de ansiedade;
- dificuldades na aprendizagem socioemocional.
Complementando a isso, vários estudos que apontam efeitos em crianças e adolescentes, abordam inclusive a questão da diminuição de empatia, aumento da agressividade, hiperatividade, depressão, egocentrismos, podendo levar a um nível maior de ansiedade e menos interações sociais reais, de acordo com a mídia a que são expostos. O déficit destas habilidades sociais, podem se relacionar ao sentimento de insegurança, a insatisfação com a autoimagem, bem como transtornos psiquiátricos.
Na adolescência, por ser uma, fase que se inicia o desenvolvimento psicossocial, um déficit de estímulos que causam uma desaceleração em todas as áreas do desenvolvimento cognitivo, emocional, físico e social.
Há indicativos que déficits no processamento emocional são identificados como um mecanismo central para dificuldades comportamentais e de interação social, já que os indivíduos acometidos de tais déficits tendem a interpretar equivocadamente os ensejos emocionais que normalmente ajudam a guiar seus comportamentos, incluindo dificuldades no reconhecimento de expressões faciais e prosódia.
Pensando em todos esses aspectos acima, em uma pesquisa realizada por Andretta et al. (2021), com 456 adolescentes com idades entre 14 e 17 anos, constatou-se que o smartphone e as redes sociais foram as Tecnologias da Informação e Comunicação mais utilizadas pelos adolescentes. E estes apresentaram maiores frequências em Habilidades Sociais de Civilidade e Desenvoltura Social, com alta dificuldade na emissão das Habilidades Sociais de Empatia, Autocontrole e Assertividade. Dificuldades na emissão de habilidades de comportamentos sociais podem trazer prejuízos para a vida do adolescente, o baixo repertório de habilidades assim como o autocontrole estão também associados ao vício à internet.
Além disso, alguns estudos como o de Olvera et al. (2021) e da Hull e Parnes (2021), observaram que durante a pandemia houve o aumento e agravamento de tiques em adolescentes, principalmente com o aumento significativo da exposição a telas nesse período. Em suas pesquisas, os tiques do Tik Tok foram graves e frequentes em geral. O grupo de pesquisa foi do sexo feminino com idade entre 14-18 anos.
Movimentos complexos dos braços eram comuns e causavam incapacidade significativa ao interromper o movimento regular. Coprolalia (ato involuntário de dizer palavras obscenas), copropraxia (ato involuntário de fazer gestos obscenos) e comportamento autolesivo estiveram presentes na maioria dos assuntos. Esses comportamentos funcionais são muitas vezes fenomenologicamente indistinguíveis dos tiques vistos na Síndrome de Tourette, o que acaba sendo muitas vezes difícil a diferenciação clínica deles.
Essas pesquisas indicaram que as jovens que desenvolveram esses tiques do Tik Tok, assistiam aos mesmos influencers que por sua vez eram acometidos pela Síndrome de Tourette.
Ao longo da história, ocorreram surtos denominados de “histeria em massa”, mais recentemente “doença psicogênica em massa” e que agora podem ser chamados de doença funcional em massa. Nesses surtos, existia uma conexão social entre dois ou mais dos afetados e os sintomas se espalhavam por meio da visão, som ou comunicação verbal. Até recentemente, a disseminação de sintomas funcionais era restrita a pessoas que compartilhavam um mesmo local físico. No entanto, com o advento das mídias sociais (usadas por 90% dos estudantes universitários de acordo com um estudo), o acesso a vídeos de vários sintomas e comportamentos, tanto funcionais quanto “orgânicos”, está prontamente disponível. No contexto da pandemia de COVID-19, foi descrita a observação inicial do desenvolvimento abrupto de movimentos e sons semelhantes a tiques enquanto se assistia a fenômenos semelhantes nas mídias sociais e recebeu o termo: “TikTok tics”.
Esses estudos estão sugerindo que é possível causar uma doença funcional em massa através da internet, indicando mais um ponto de atenção com relação ao conteúdo consumido e o excesso de exposição do mesmo.
Tecnologias digitais trazem apenas malefícios?
O uso destas tecnologias digitais para o bem ou para o mal, dependem não só da tecnologia em si, mas de quem a utiliza e a qual finalidade se endereça.
Na utilização das tecnologias da informação e da comunicação, dentre os aspectos positivos que elas proporcionam para as novas gerações, estão o aumento da habilidade de resolução de problemas, uma maior comunicação e colaboração entre os jovens e até mesmo satisfação com a vida.
Por exemplo, diferente do uso das mídias sociais e smartphones, o videogame proporciona o desenvolvimento de diversos aspectos, dentre eles as habilidades sociais, flexibilidade cognitiva, interação social, as funções executivas, potencializando os benefícios característicos ao desenvolvimento desta etapa da vida. E os adolescentes encontram nos jogos uma forma de interagir entre si, planejarem, trabalhar em equipe, aprender outro idioma, criar estratégias, aprender sobre história, experienciar emoções e situações de uma forma prazerosa.
Alguns autores apontam que é por intermédio dos jogos, que ocorre também a construção da identidade de jovens, afinal o ambiente virtual está cada vez mais realista. Desta forma, para a vivência em ambientes virtuais, o adolescente utiliza das competências e habilidades sociais para iniciar ou manter estas interações, ainda que seja através de um dispositivo tecnológico. Por intermédio deste ambiente, aspectos do comportamento e funções cognitivas podem se desenvolver obtendo ganhos significativos.
Contudo, vale a pena a ressalva de que a utilização, classificação etária e o tempo destinado aos jogos, assim como para a utilização dos smartphones, TV, tablet, computador; devem ser supervisionados por um adulto, visto o período maturacional cognitiva e social no qual o adolescente se encontra, o torna não só mais vulnerável e mais propenso a assumir riscos, como a exposição excessiva pode acarretar em transtornos, sintomas compulsivos e a dependência tecnológica.
Sinais de atenção para um possível desenvolvimento da Dependência em Tecnologia
- Pensamento obsessivo em estar conectado;
- Aumento crescente no tempo em que se passa conectado;
- Demonstração de raiva quando precisa passar tempo longe do celular ou computador;
- Usa o celular durante as refeições e/ou atividades em grupo;
- Diminuição do contato social real;
- Queda no rendimento escolar ou profissional;
- Mentiras com relação ao tempo real gasto com a internet para família e amigos;
- Dormir pouco ou não dormir por sentir necessidade em se manter online;
- Tentativas infrutíferas de diminuir ou cessar o uso da internet.
Tempo limite de exposição às telas (o que inclui videogames), segundo as Sociedades de Pediatria Americana e Brasileira:
- menores de 2 anos: zero exposição às telas;
- 2 a 5 anos: no máximo 1 horas por dia, sempre supervisionadas pelos responsáveis;
- 6 a 10 anos: no máximo de 1 a 2 horas por dia, também supervisionadas por responsáveis;
- 11 a 18 anos: limitar o tempo de telas de 2 a 3 horas por dia.
Algumas sugestões na alteração do estilo de vida que pode contribuir para um bem-estar maior:
- Não usar telas durante as refeições;
- Desconectar-se no período de 1 a 2 horas antes de dormir;
- Não permitir que a criança ou adolescente se isole no quarto para usar a tecnologia, incentivando o uso em locais comuns, como a sala;
- Incentivar atividades físicas;
- Incentivar a criação de hobbies que não sejam virtuais;
- Incentivar bate-papos reais;
- Criar uma rotina e quebrar padrões previamente consolidados;
- Auxiliar na construção de um mundo real muito mais atrativo do que o virtual.
Lembre-se que em casos de suspeita é essencial buscar ajuda de um profissional da saúde mental, tanto para diagnóstico quanto para tratamento.


