Hikikomori Syndrome

Alan R.Teo (2010) até fez uma brilhante analogia com a Lenda do Xintoísmo sobre a Deusa do Sol Amaterasu e a Síndrome do Hikikomori. Na lenda, ela é uma das filhas de Izanagi (Deus da Terra, um dos Deuses responsáveis ​​pela criação do Japão), irmã de Susanoo, o Deus das Tempestades e do Mar, e de Tsukuyomi, o Deus da Lua e regente da noite.

A Deusa Amaterasu herdaria os céus, Tsukuyomi assumiria o controle da noite e Susanoo assumiria o controle da tempestade e dos mares.

Em um conflito com seu irmão Susanoo, Amaterasu fugiu para uma caverna e sua ausência causou escuridão em todo o Japão. As colheitas morreram e as pessoas sofreram; Até que os Deuses decidiram que precisavam retornar Amaterasu à sua posição nos céus.

Eles realizaram várias oferendas, como a dos três tesouros imperiais (um espelho, uma jóia e uma espada), vários rituais, tudo na tentativa de atraí-la para fora de sua caverna. E em um desses rituais, houve tanta diversão e música, que Amaterasu não resistiu e foi dar uma espiada. Quando ela espiou fora de sua longa estadia no escuro, um raio de luz chamado “amanhecer” escapou, e a deusa ficou deslumbrada com o seu próprio reflexo no espelho.

Surpresa, ela se adiantou espreitando para além da rocha, e o deus Ameno-Tajikarawo, aproveitando-se de sua distração, puxou-a para fora e a caverna celestial foi selada com um cordão sagrado para evitar que ela pudesse retornar. Cercada por tamanha alegria, ela concordou em retornar a iluminar o mundo com seus raios resplandecentes.

A Síndrome de Hikikomori mencionada acima, afeta principalmente pessoas do sexo masculino e se caracteriza pelo prolongamento do isolamento social, de adolescentes e jovens adultos, pelo período mínimo de seis meses.

Mesmo sendo originalmente descrita no Japão, na década de 1980, caracterizada como um fenômeno psicossocial exclusivo da cultura japonesa, hoje existe grande número de países, com culturas distintas, que relatam casos de Hikikomori, como Hong Kong, Omã, Coreia do Sul, China, Índia, Espanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Portugal e Brasil – sendo este, um único caso. Além disso, pode-se também encontrar pesquisas com psiquiatras em diversos países como Austrália, Bangladesh, Irã, Taiwan e Tailândia, que sugerem casos de Hikikomori em todos os países, especialmente nas áreas urbanas (Stip, E.; Thibault, A.; Beauchamp-Chatel, A.; e Kisely, S., 2016).

Esta síndrome evolui de maneira gradual, com alterações de comportamento e recusas em ir para escola, universidade, trabalho, treinos de esportes, até começar a se isolar dos familiares e amigos. Estes indivíduos acabam usualmente ficando reclusos em seus quartos na companhia do videogame, TV e/ou computador e chegam a inverter o dia pela noite. Dependendo do quadro de agravamento, acabam ficando com seus quartos ou residências bagunçadas, repletas de lixo, comida, roupas e utensílios sujos, etc. Em alguns casos, acabam ficando dependentes da tecnologia, muitas vezes utilizam-se de fraldas ou baldes para fazerem suas necessidades; e devido esse estilo de vida, podem desenvolver problemas cardíacos, hipertensão, problemas renais, obesidade, dentre outras comorbidades. Podem também sofrer de descontrole emocional, perda de habilidades sociais, contudo, a função cognitiva pode não ser comprometida.

Embora ainda haja muita controversa sobre a origem dessa síndrome, geralmente os indivíduos acometidos apresentam algum histórico de experiência traumática como: bullying, rejeição parental, fracasso no trabalho ou escola/universidade, etc. Ou seja, a sensação de impotência e a frustração, estão envolvidas de alguma forma neste isolamento prolongado voluntário.

Essa analogia, apesar de triste, nos faz pensar sobre o período de quarentena em que vivemos recentemente, separados involuntariamente de nossos entes queridos e amigos, forçados a lidar com a quebra brusca da rotina, com o aumento da ansiedade e angústia, em função de um futuro desconhecido que nos espera; juntamente com o aumento e normalização do uso constante e contínuo da tecnologia, é normal imaginar o possível aumento de pessoas acometidas por: Síndrome do Pânico, Agorafobia, Depressão, Crises de Pânico, Ansiedade, entre outras; que podem acabar desenvolvendo um quadro de isolamento social prolongado – Síndrome de Hikikomori, sem mais querer voltar a interagir com o mundo fora das quatro paredes que a protegem de perigos visíveis e invisíveis.

Com o suporte de Psicólogos e Psiquiatras, os indivíduos com essa síndrome, podem redescobrir que o mundo fora das cavernas, mesmo que ainda seja grande e assustador, é também repleto de alegria, amor, diversão e, principalmente, luz.

Em caso de identificação dos sintomas relatados acima, entre em contato com profissionais da saúde para diagnóstico e tratamento.

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